6 de junho de 2016

Quanto mais bicicletas nas ruas, maior a nossa capacidade de salvar vidas

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Oficina realizada em São Paulo mostrou como a mobilidade ativa impacta positivamente a segurança viária nas cidades – via WRI Brasil Cidades Sustentáveis.

O MobiLab foi criado há dois anos para ser um laboratório de soluções para a mobilidade urbana de São Paulo. Baseado em três pilares – inovação, transparência e participação social -, é de de lá que saem inovações tecnológicas que ajudam a melhorar a gestão de transportes e do trânsito da capital paulista, além de ser uma das iniciativas que levaram a cidade a vencer o prêmio internacional MobiPrize em 2014. Foi nesse ambiente, marcado pela busca de inovação, que cerca de 80 técnicos da Prefeitura de São Paulo e representantes de organizações da sociedade civil receberam nesta sexta-feira (3) a oficina de mobilidade ativa organizada pelo WRI Brasil Cidades Sustentáveis, em parceria com o ITDP Brasil e a Nacto. O evento integrou as atividades daIniciativa para a Segurança Viária Global da Bloomberg Philanthropies, para a qual São Paulo foi uma das dez cidades selecionadas em todo o mundo.

Brenda Medeiros, Gerente de Mobilidade Urbana do WRI Brasil Cidades Sustentáveis, explicou como a segurança viária está diretamente relacionada ao uso da bicicleta. Quanto mais altos os índices de uso do modal e quanto mais infraestrutura cicloviária a cidade oferece, mais baixos tendem a ser o número de acidentes e mortes de ciclistas. “A relação é clara: quanto mais bicicletas estiverem circulando na cidade, maior a nossa capacidade de salvar vidas”, afirma a especialista.

Acidentes de trânsito são a maior causa de mortes entre jovens de 15 a 29 anos no mundo. No caso de acidentes envolvendo ciclistas, a maioria envolve colisões frontais e acontece em cruzamentos. A informação é um indicativo da necessidade de mudanças estruturais nas cidades, para que possam acomodar e estimular o uso da bicicleta. “O ônibus é mais seguro que o carro. Caminhar e andar de bicicleta é mais seguro do que usar o carro. Nós precisamos fazer as mudanças necessárias nas cidades para provocar uma retomada desse comportamento. É uma decisão de o que será prioridade. Se continuarmos a construir viadutos, mais espaço abriremos para os carros e mais carros estarão nas ruas”, completa Brenda.

Brenda Medeiros: mais bicicletas, mais segurança (Foto: WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

O uso da bicicleta como meio de transporte depende de um ambiente viário pensado para que esse modo seja de fato uma opção viável. Em outras palavras, o desenho urbano precisa ser feito priorizando as pessoas – considerar os usuários mais vulneráveis da via é essencial para criar um ambiente seguro. É o que explica Skye Duncan, Diretora de Design Viário da Nacto: “Construir ruas feitas para as pessoas significa parar de fazer o que fizemos pelos últimos 50 anos e criar ambientes que deixem de priorizar os veículos”. Todos os anos, 1,25 milhão de pessoas morrem em acidentes de trânsito. Esse número, conforme explica a especialista, equivale a uma morte a cada 30 segundos. “Essas mortes são muitas vezes prematuras e poderiam ser evitadas. E nós sabemos o que precisamos fazer para evitá-las. É o que busca o princípio da visão zero: nenhuma vida perdida é aceitável”, ressalta Skye.

Skye Duncan: as ruas precisam ser construídas para as pessoas e não para os carros (Foto: WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

O investimento em infraestruturas para o uso da bicicleta como meio de transporte pode levar as cidades a uma economia de trilhões de dólares, além de ser uma forma de tornar o ambiente urbano mais seguro e atrativo para as pessoas. Nick Falbo, Planejador Sênior da Alta Planning, foi um dos convidados da oficina e apresentou boas práticas de instalação de infraestrutura cicloviária nas cidades. “O desenho viário precisa ser pensado para que na prática a segurança dos ciclistas seja garantida. Minimizar a exposição a conflitos, reduzir limites de velocidade e priorizar ciclistas e pedestres nos cruzamentos são alguns exemplos de como isso pode ser feito”, explica.

Como morador de Portland, cidade dos Estados Unidos que viu o uso da bicicleta crescer de forma significativa nos últimos anos, Nick acredita que a priorização dos modos ativos de transporte é uma importante medida para tornar as cidades lugares melhores e destaca alguns elementos essenciais nesse processo:

  • planejamento de uma rede cicloviária integrada e eficiente para que os ciclistas possam chegar aonde quiserem na cidade;
  • ciclovias seguras e protegidas, que encorajem as pessoas a utilizarem a bicicleta;
  • prioridade aos pedestres e ciclistas em vias, sinalizações e cruzamentos.

“As pessoas costumam dizer: “Aqui não é Amsterdã”. O que elas esquecem é que as mudanças precisam de tempo para chegar aos bons resultados que vemos hoje em cidades como Amsterdã. Mas são mudanças possíveis”, assegura o especialista.

Nick Falbo: cruzamentos seguros e prioridade para a mobilidade ativa (Foto: WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

De São Paulo a Fortaleza

Fortaleza e São Paulo são as duas cidades brasileiras dentro da Iniciativa para a Segurança Viária Global da Bloomberg Philanthropies. Ambas as capitais estão recebendo apoio para implementar soluções e infraestrutura com o objetivo de reduzir o número de acidentes e mortes no trânsito. A qualificação do ambiente urbano para o uso da bicicleta como meio de transporte é uma das frentes de ação para atingir resultados positivos.

No caso de São Paulo, a malha cicloviária passou por um crescimento substancial nos últimos anos, e o planejamento cicloviário é, hoje, um dos eixos temáticos do Plano de Mobilidade da cidade. Suzana Leite Nogueira, do Departamento Cicloviário da CETSP, apresentou aos presentes um panorama da presença da bicicleta na capital paulista. A especialista explica que, muitas vezes, algumas infrações são cometidas em decorrência das condições viárias do ambiente e ressalta a importância de adequar o desenho urbano à circulação das bicicletas. Embora existam diferentes tipologias para a implementação de infraestrutura cicloviária – ciclovias, ciclofaixas, ciclorrotas e calçadas compartilhadas – Suzana explica que “não existe um tipo certo. É preciso analisar, em cada caso, o local onde será implementada a estrutura. Mas sempre com um objetivo: construir uma rede cicloviária conectada e integrada”.

Ciclovia em São Paulo (Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

Thiago Benicchio, Gerente de Transportes Ativos do ITDP Brasil, apresentou um histórico da bicicleta em São Paulo. Desde a primeira legislação sobre o tema, que data de 1990, muitos avanços já foram implementados, como a instituição de grupos de trabalho e órgãos municipais específicos da área. Com o novo Plano Diretor Estratégico, veio a previsão de 30% dos recursos do Fundo de Desenvolvimento Urbano à mobilidade sustentável na cidade. “Ainda temos um longo caminho pela frente, mas todas essas mudanças ajudaram a trazer novos ciclistas e a contribuir para que a sociedade entenda a presença da bicicleta na cidade como normal e necessária e não como algo exótico e marginalizado como costumava ser até pouco tempo atrás”, avalia.

Fortaleza, igualmente, vive um cenário promissor no que diz respeito à bicicleta. É na capital cearense, por exemplo, que está o sistema de compartilhamento de bicicletas mais utilizado do país entre as capitais, com um milhão de viagens registradas em um ano e meio de operação. Gustavo Pinheiro Lessa Parente faz parte da equipe do Programa de Ações Imediatas de Trânsito e Transportes de Fortaleza (PAITT), criado pela prefeitura em 2013 para implementar ações para a promoção do uso da bicicleta, e trouxe ao público da oficina um pouco do contexto das bicicletas na capital cearense. No final de 2014, a cidade lançou seu Plano Cicloviário, que prevê a construção de 524 quilômetros de malha cicloviária, além a instalação de infraestruturas e facilidades para ciclistas, como bicicletários e paraciclos. Fortaleza também vem investindo em pesquisas volumétricas e, a partir desses levantamentos, percebeu o aumento no número de ciclistas.

Ciclovia na orla em Fortaleza (Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

Depois de uma densa manhã de informações, à tarde os participantes retornam para uma rodada de atividades práticas em que terão a oportunidade de aplicar os conhecimentos adquiridos. São Paulo já está no caminho certo e, se o trabalho feito até aqui tiver continuidade, a tendência é que a cidade evolua ainda mais, acredita Skye: “As mudanças não caem do céu nem acontecem por acaso. As cidades do mundo que registram números positivos de uso da bicicleta percorreram um longo caminho para estar onde estão hoje. São Paulo aumentou sua rede cicloviária em 500% em três anos. É assim que as mudanças começam”.

Cerca de 80 pessoas acompanharam os debates da manhã na Oficina de Mobilidade Ativa (Foto: WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

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